quinta-feira, 25 de maio de 2017

PAI


Postado originalmente em 7/8/2010, no Space
Nos últimos dias o foco da família voltou-se para minha mãe, Maria Augusta. Dias difíceis, principalmente, para quem está mais próximo, como minha irmã, Cida, que, em virtude também da passagem do tempo, tem lá os seus problemas.
Ainda assim,  são quatro gerações: bisavó, avó, neta e bisneta.  Cada qual com uma questão afeta ao seu momento.
Alguns podem dizer que isso foi permitido pelo tempo e que ele não fora tão implacável assim. Tá valendo, já que Deus é Senhor também do tempo! Foi uma linda permissão.
Nosso pai é falecido há tempos, mas nos agarramos aos que temos perto (e longe!) e, entre erros e acertos, conseguimos manter os laços familiares fortes e extensivos. Se ele estivesse vivo, chamaria a Rafaela de “perereco do vovô”. Foi a forma carinhosa como ele se referiu  à primeira neta, Sâmya, quando ela nasceu.
Aos Amigos que têm filhos, fica o meu abraço e o desejo de que cada novo dia seja especial, com laços muito, muito fortes para que as próximas gerações carreguem tudo o que há de melhor de vocês. Mas, reparem... Eles crescem muito rápido.
Aos filhos, desejo um próspero relacionamento... Será infalível para uma vida abençoada e frutífera. Isso é bíblico e é uma promessa... Mas, reparem... Eles não viverão para sempre.
Aos filhos cujos pais já se foram, adotem um. Tenho certeza que ambos ficarão muito felizes. Reparem... Sempre tem um pai desfilhado pronto para dar carinho.
Como homenagem, deixo um texto de Martha Medeiros.
Espero que gostem. Grande abraço!!
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Pais heróis e mães rainhas do lar. Passamos boa parte da nossa existência cultivando estes estereótipos.
Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça. A rainha do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá prá implicar com a empregada. O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra? Fizeram 60, 70, 80 anos. Nossos pais envelhecem. Ninguém havia nos preparado para isso. Um belo dia eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas.
Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez de eles serem cuidados e mimados por nós, nem que para isso recorram a uma chantagenzinha emocional. Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam. Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo o que o médico proibiu. Estão com manchas na pele. Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos: caducos ficam os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida.
É complicado aceitar que nossos heróis e rainhas já não estão no controle da situação. Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm este direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina.
Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo.
Ficamos irritados se eles se atrapalham com o celular e ainda temos a cara-de-pau de corrigi-los quando usam expressões em desuso: calça de brim? frege? auto de praça?
Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por eles terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis.
Provocamos discussões inúteis e os enervamos com nossa insistência para que tudo siga como sempre foi.
Essa nossa intolerância só pode ser medo.
Medo de perdê-los, e medo de perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais. É uma enrascada essa tal de passagem do tempo.
Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros, ainda mais quando os outros são papai e mamãe, nossos alicerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar, e que agora estão dando sinais e que um dia irão partir sem nós.

Martha Medeiros