segunda-feira, 29 de maio de 2017

Eu, Caminhante


Compartilhei uma mensagem no Face ontem, mais especificamente uma frase de Martha Medeiros, que me pareceu bem lógica. Entretanto, quando digo lógica é porque há um vínculo situacional comigo.

Obviamente ela foi escrita dentro de um contexto, como tudo o que pensamos, sentimos, exploramos e colocamos para fora sob forma seja lá do que for.

Primeiramente, não se trata de uma explicação, mas da necessidade de entendimento próprio, do que penso, sinto e, como sempre, gosto de compartilhar. Não que meu sim não possa virar não, ou meu não, um sim. Posso mudar de opinião, reavaliar conceitos, e isso é salutar. Só existe um lugar onde vocês não me encontrarão: em cima do muro, afinal, levo Dante Alighieri e João, do Apocalipse, muito a sério.

Sempre tive comigo a ideia de que o caminho é mais importante do que a partida ou a chegada. Na partida, deixamos. Na chegada, entregamos. A caminho, aprendemos.  Não importa o quê e não importa quantos destinos eu tenha que seguir. Gosto de caminhar.

Nesse caminho aprendo que desviar para esquerda ou para direita não é aceitável. Alto lá! Quem disse? Ei, o caminho é meu. Tenho sensibilidade suficiente para enxergá-lo e para administrar as consequências. Posso parar e descansar? Posso! E devo. Posso retroceder? Posso, também, e o quanto for necessário para sentir-me confortável novamente e prosseguir viagem.

Nesse caminho também aprendo a respeitar e a conviver. Mão inglesa não vale e estamos na Terra Brasilis. Isso me lembra as escadas da Rodoviária de Brasília. Oiê, com licença, posso subir/descer? Obrigada. De nada. Há muitas pessoas indo e vindo. Meu local de partida pode ser o destino de alguém, não é mesmo? São os encontros e desencontros. Bons ou ruins, eles fazem parte, quer queiramos ou não.

Nesse caminho aprendo, inclusive, que talvez aconteçam coisas que me deixem a margem do meu objetivo, que é vivenciar esse trânsito. “Não há vento ou tempestade(s) que te impeçam de voar” é pura e linda poesia. Vejam bem: eu tenho sensibilidade, sou forte dentro da minha força, mas nem todos caminhos que precisarei trilhar, ainda que conhecidos, serão permanentemente seguros. É Flórida, mas é verdade. Tenho o direito de desistir ou posso simplesmente ter que “passar o bastão”, o “anel de bamba”, enfim, precisar de alguém que me suceda. Mas isso não significa que não terei sido intensa ou completado a minha parte, a minha carreira. Fui até onde consegui ou me foi permitido.

Esse caminho também mostrará que nem sempre deixar um legado é sinônimo de ser lembrada(o), ou se preferirem, um não esquecida(o), quer eu chegue ou não aos meus destinos. Deixar a minha marca expressiva e latente não garante subsistência da minha memória nem aos que me são próximos.  Não que sejamos úteis só quando estamos aqui, ou que se trate de desmerecimento sumário. É somente porque a vida segue e isso é mais que natural.

Voltando à frase de Martha Medeiros, ela diz o seguinte: “Suporto tudo nessa vida, menos as fases transitórias, aquelas onde já abandonamos o lugar em que estávamos mas ainda não chegamos aonde queremos.”

Percebem a diferença sobre tudo o que disse anteriormente? Pois é. Foi e é situacional. E fases podem durar bastante tempo.

Tenho vivenciado um relacionamento a distância depois de muito tempo sozinha e depois de ter que sair de detrás de muros, principalmente, mentais. Perdi segurança e equilíbrio e confesso que repasso, todas as noites, cada momento usufruído e tento manter esperança de tê-los em maior escala e quantidade.

Trata-se de um momento de estagnação onde, mesmo que eu queira, a intimidade se difere do normal. O diálogo não traz a mesma carga necessária de tranquilidade ou desabafo ante os problemas que, convenhamos, todos temos. A partilha não se desenvolve. O colo não existe, mesmo que eu precise muito. E creiam-me, não tem sido fácil. O transitório não me assusta, mas, sim a inércia que ele pode vir a produzir, seja por acomodação, insegurança ou desconforto. Quase um descaminho.

Estou tentando o caminho para uma relação saudável. Esse é o meu mais novo desafio, depois de muitas situações não legais. Ando, engatinho, ando de novo. Preciso aprender muito mais do que pensei e ter uma paciência de Jacó, principalmente com os dois fatores mais que preponderantes: tempo e distância. Mas está valendo. Não sou tão forte, mas também, não tão fraca.


Por ora, sigo amando. Muito.

Magda Pêgo

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Oração



Um Pedido a Deus, ao Tempo e aos Amigos
A Deus, que me dê mais e mais amigos;
Ao tempo que passe devagar; e 
Aos amigos que não linguem se Deus 
ou o tempo nos afastar!

Amém!

ANÁLISE - Fernando Pessoa


Tão abstrata é ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa, Dezembro/1911
(O Eu Profundo e os outros Eus)
 

Dá-lhe, Cespe!!

Postado em 9/9/2010 10:06:16, no Space
(Cespe /DESO 2003) As relações humanas eficazes ensejam
a habilidade de reconhecimento das diferenças individuais, e quando
estas forem consideradas negativas no contato inicial, deve-se evitar
o relacionamento para coibir futuros conflitos.

Item errado. Quando as diferenças individuais forem
consideradas negativas em um contato inicial as pessoas devem
tentar compreender os motivos do outro e criar estratégias para
contornar os possíveis conflitos decorrentes de tais diferenças e não
abandonar o relacionamento.


Faz Parte - Mafalda Veiga


 *** 
Trazes a vida nos braços
Pousas o mundo no chão
Largas os medos na entrada
E desmontas cada peça
De que é feito o coração

 Deixas lá fora o cansaço
Desarmas a solidão
Brindas sonhos ao relento
Como quem junta os pedaços
Entre a loucura e a razão

Faz parte ser um pouco perdido
Faz parte começar outra vez
Faz parte ir atrás dos sentidos
E voar a sentir o mundo na ponta dos pés

Guardas a vida nos braços
Pousas os dias no chão
Brindas sonhos ao relento
Como quem junta os pedaços
De que é feito o coração

Trazes o tempo desfeito
No que procuras em ti
Se olhares no fundo do peito
Saberás quem és
Mesmo até ao fim

Rosa vermelha Mafalda Veiga Rosa vermelha

Ditos, Ditos de Outras formas


"O fruto da piperácia sabe a colírio para alheios globos oculares."

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector



"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. "


Clarice Lispector

PAI


Postado originalmente em 7/8/2010, no Space
Nos últimos dias o foco da família voltou-se para minha mãe, Maria Augusta. Dias difíceis, principalmente, para quem está mais próximo, como minha irmã, Cida, que, em virtude também da passagem do tempo, tem lá os seus problemas.
Ainda assim,  são quatro gerações: bisavó, avó, neta e bisneta.  Cada qual com uma questão afeta ao seu momento.
Alguns podem dizer que isso foi permitido pelo tempo e que ele não fora tão implacável assim. Tá valendo, já que Deus é Senhor também do tempo! Foi uma linda permissão.
Nosso pai é falecido há tempos, mas nos agarramos aos que temos perto (e longe!) e, entre erros e acertos, conseguimos manter os laços familiares fortes e extensivos. Se ele estivesse vivo, chamaria a Rafaela de “perereco do vovô”. Foi a forma carinhosa como ele se referiu  à primeira neta, Sâmya, quando ela nasceu.
Aos Amigos que têm filhos, fica o meu abraço e o desejo de que cada novo dia seja especial, com laços muito, muito fortes para que as próximas gerações carreguem tudo o que há de melhor de vocês. Mas, reparem... Eles crescem muito rápido.
Aos filhos, desejo um próspero relacionamento... Será infalível para uma vida abençoada e frutífera. Isso é bíblico e é uma promessa... Mas, reparem... Eles não viverão para sempre.
Aos filhos cujos pais já se foram, adotem um. Tenho certeza que ambos ficarão muito felizes. Reparem... Sempre tem um pai desfilhado pronto para dar carinho.
Como homenagem, deixo um texto de Martha Medeiros.
Espero que gostem. Grande abraço!!
 ****
Pais heróis e mães rainhas do lar. Passamos boa parte da nossa existência cultivando estes estereótipos.
Até que um dia o pai herói começa a passar o tempo todo sentado, resmunga baixinho e puxa uns assuntos sem pé nem cabeça. A rainha do lar começa a ter dificuldade de concluir as frases e dá prá implicar com a empregada. O que papai e mamãe fizeram para caducar de uma hora para outra? Fizeram 60, 70, 80 anos. Nossos pais envelhecem. Ninguém havia nos preparado para isso. Um belo dia eles perdem o garbo, ficam mais vulneráveis e adquirem umas manias bobas.
Estão cansados de cuidar dos outros e de servir de exemplo: agora chegou a vez de eles serem cuidados e mimados por nós, nem que para isso recorram a uma chantagenzinha emocional. Têm muita quilometragem rodada e sabem tudo, e o que não sabem eles inventam. Não fazem mais planos a longo prazo, agora dedicam-se a pequenas aventuras, como comer escondido tudo o que o médico proibiu. Estão com manchas na pele. Ficam tristes de repente. Mas não estão caducos: caducos ficam os filhos, que relutam em aceitar o ciclo da vida.
É complicado aceitar que nossos heróis e rainhas já não estão no controle da situação. Estão frágeis e um pouco esquecidos, têm este direito, mas seguimos exigindo deles a energia de uma usina.
Não admitimos suas fraquezas, seu desânimo.
Ficamos irritados se eles se atrapalham com o celular e ainda temos a cara-de-pau de corrigi-los quando usam expressões em desuso: calça de brim? frege? auto de praça?
Em vez de aceitarmos com serenidade o fato de que as pessoas adotam um ritmo mais lento com o passar dos anos, simplesmente ficamos irritados por eles terem traído nossa confiança, a confiança de que seriam indestrutíveis como os super-heróis.
Provocamos discussões inúteis e os enervamos com nossa insistência para que tudo siga como sempre foi.
Essa nossa intolerância só pode ser medo.
Medo de perdê-los, e medo de perdermos a nós mesmos, medo de também deixarmos de ser lúcidos e joviais. É uma enrascada essa tal de passagem do tempo.
Nos ensinam a tirar proveito de cada etapa da vida, mas é difícil aceitar as etapas dos outros, ainda mais quando os outros são papai e mamãe, nossos alicerces, aqueles para quem sempre podíamos voltar, e que agora estão dando sinais e que um dia irão partir sem nós.

Martha Medeiros

Vida que segue




*Postado em 30/07/2010, no Space*

Planejei muitas coisas... Estudos, mudanças, rememorações, reverberações das audíveis palavras que disse a algumas pessoas.

Nada se confirmou. Nada se concretizou. Os planos, mais uma vez, não eram os meus.

Silenciaram-se os  livros, a minha própria voz e, parece-me, que todo o resto.

Nada ouvi além dos meus próprios ruídos, oriundos dos medos, esses, os mais variados.

Cá estou na tentativa de suplantar o tempo passado em um presente sem novas ou grandes expectativas, pois “estou” mediana.  Não morna. Não em cima do muro. Só estática. Imóvel.  

Ontem me atrevi a dar os primeiros passos...   Achar o caminho  dentro do navio... Voltei-me para a popa, para a proa. Desci,  subi ao convés.

Posta à prova, só me resta um lugar onde não me atrevi a ir, mas sei que preciso. Afinal, saber onde fica o comando é necessário.

Lá não verei nada além do infinito, mas  gostaria de entender o significado de tamanha imensidão e que, definitivamente, o controle não é meu.

Dito isto, continuarei singrando os mares.

Vida que segue...


VIA LÁCTEA - Olavio Bilac



Interessante...
Ouvimos muito mais quando amamos...
Estrelas... pessoas... 
A percepção nos remete até ao que não pretendemos ouvir, mas precisamos, pois algo depende desse entendimento.
O que é o algo?
Cada um sabe (ou saberá) do seu!



******

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(Olavo Bilac)

Quinto Motivo da Rosa - Cecília Meireles



Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,

não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:- o prazo
do Criador na criatura...

Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.

Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.


(Cecília Meireles)

Poema de Despedida

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempoE recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.


Rabindranath Tagore

Ser Mulher



Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida, é lutar por causas perdidas e sair sempre vencedora; é estar antes de ontem e depois de amanhã, é desconhecer a palavra recompensa apensas de seus atos.


Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas; é correr atrás das nuvens num dia de sol e alcançar o sol num dia de chuva. 


Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza; é cancelar sonhos em prol de terceiros, é acreditar quando ninguém mais acredita; é esperar quando ninguém mais espera. 


Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa; é ser enganada e sempre dar mais uma chance; é cair no fundo do poço e emergir sem ajuda. 


Ser mulher é estar a mil lugares de uma só vez; é fazer mil papéis ao mesmo tempo; é ser forte e fingir que é frágil para ter um carinho. 


Ser mulher é comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever; é construir castelos na areia, vê-los desmoronando pelas águas e ainda assim amá-las. 


Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu; é doar o que ainda não foi solicitado. 


Ser mulher é não ter vergonha de chorar por amor; é saber a hora certa do fim, é esperar sempre por um recomeço. 


Ser mulher é ser mãe dos seus filhos e dos filhos dos outros e amá-los igualmente; é ser nova quando o coração está a espera do amor, ser crescente quando o coração está se enchendo de amor, ser cheia quando ele já está transbordando de tanto amor e minguante quando este amor vai embora. 


Ser mulher é hospedar dentro de si o sentimento de perdão; é voltar no tempo todos os dias e viver, por poucos instantes, coisas que nunca ficaram esquecidas. 


Ser mulher é cicatrizar feridas de outros e inúmeras vezes deixar as suas próprias feridas sangrando. 


Ser mulher é ser princesa aos 20, rainha aos 30, imperatriz aos 40 e especial a vida toda. 

Ser mulher é saber ser super-homem quando o sol nasce e virar Cinderela quando a noite chega. 


Ser mulher é, acima de tudo, um estado de espírito; é uma dádiva; é ter dentro de si um tesouro escondido e ainda assim dividi-lo com o mundo.
(Desconhecido)

Clarice, Sempre Clarice


...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Clarice Lispector

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997

Cântico - Vinicius de Morais




Cântico

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

*Vinicius*

segunda-feira, 22 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ILUMINAÇÃO...

Iluminação...


Boa Semana!!

🌸🌿🌸🌿🌸🌿🌸🌿 



Somos uma casca de humanidade onde cabe de tudo. Por fora, fácil. Por dentro, complexos, onde uma multidão de sentimentos se digladiam em busca da supremacia ora moral, ora espiritual, ora humana, ora animal. Cuidado com o quê ou quem você alimenta. Como diria o Poeta, Flores pra vcs! Boa Semana!
Magda



🌸🌿🌸🌿🌸🌿🌸🌿 



quarta-feira, 3 de maio de 2017

In and Out of Time - Maya Angelou (Em Tempo, ou não, Tradução: Paulo Breno de Moraes Silveira)


Escutei esse poema em uma cena do filme Madea's Family. Fiquei encantada com sua beleza e a expressividade de Maya Angelou. Foi amor à primeira vista!
Segue a tradução feita por um amigo, e o original.
Boa leitura.
Magda

Em tempo, ou não 

O sol chegou
A névoa se elevou
Ao longe dá pra notar
A longa estrada pro nosso lar
Você sempre teve a mim
E foi minha desde então
Nosso amor sempre existiu, em tempo, ou não.

Quando o sol ardente, a primeira pedra revelou
E a primeira árvore do solo da floresta se projetou,
Eu te amei cada vez mais.          
Você soltou suas tranças...
E seus cabelos na brisa lançou
Zunindo como um enxame de abelhas.
E minhas mãos, na massa da colmeia, alcançaram o mel...

Oh, meu Deus como eu amo seus cabelos.
Você me viu premido pelas circunstâncias
Perdido, machucado, ferido por acaso
E um grito imenso, eu dirigi aos céus...
Querendo transformar em sonhos os pesadelos...
O sol chegou
A névoa se elevou
Ao longe dá pra notar a longa estrada pro nosso lar.

Você sempre teve a mim
E foi minha desde então.
Nosso amor sempre existiu.
Entrou, saiu,
Entrou, saiu.
Em tempo, ou não.

Maya Angelou
(Tradução Paulo Breno)

In and Out of Time

The sun has come.
The mist has gone.
We see in the distance...
our long way home.
I was always yours to have.
You were always mine.
We have loved each other in and out of time.

When the first stone looked up at the  blazing sun
and the first tree struggled up from the forest floor
I had always loved you more.
You freed your braids...
gave your hair to the breeze.
It hummed like a hive of honey bees.
I reached in the mass for the sweet honey comb there....

Mmmm...God how I love your hair.
You saw me bludgeoned by circumstance.
Lost, injured, hurt by chance.
I screamed to the heavens....loudly screamed....
Trying to change our nightmares into dreams...
The sun has come.
The mist has gone.
We see in the distance our long way home.

I was always yours to have.
You were always mine.
We have loved each other in and out
in and out
in and out

of time.
Maya Angelou