segunda-feira, 28 de março de 2011

Perto do coração selvagem


Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos de sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir. Traziam um conhecimento que não servia como experiência - um conhecimento direto, mais como sensação do que percepção. (...) Uma vez terminado o momento de vida, a  verdade correspondente também se esgota.  Não posso moldá-la, fazê-la inspirar outros instantes iguais.  Nada pois me compromete."


Clarice Lispector – Perto do coração selvagem. São Paulo: Círculo do livro, 1980, p. 94

segunda-feira, 21 de março de 2011



"Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra."

Mário Lago


sábado, 19 de março de 2011

A DANÇA



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Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas.
Nada contava nem tinha nome.
O mundo era do ar que esperava
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo.
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio.
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda


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sexta-feira, 11 de março de 2011

Orunamamu

Leo,
Obrigada pelo livro. Ele me foi muito útil!

***
"Uma vez, há muito tempo, muito longe, havia um alfaiate. Era um homem muito pobre.  Na verdade, pode-se mesmo dizer que "estava nas lonas." Tudo o que conseguia a partir do seu trabalho de costura necessitava ser aplicado no negócio. Um dia, este alfaiate viu que precisava de um sobretudo novo para o inverno que se aproximava. Não tinha dinheiro para um tecido novo e ficou desesperado. Então teve a idéia de ir à loja do tecelão. Lá, pegou todos os bocadinhos de tecidos inutilizados do chão e levou-os para casa, trabalhou a noite toda, cortando e cozendo até chegar de manhã. Daqueles trapos fez um novo sobretudo com as texturas e as cores mais incríveis. Com grande orgulho levava  o casaco onde quer que fosse, recebendo muitos elogios. Vestiu-o e tornou a vesti-lo até  tornar-se muito gasto. Mas quando pôs o casaco esfarrapado na mesa de cortar, viu que havia ali tecido suficiente para uma túnica. Mas uma vez cozeu durante a noite e de manhã tinha uma bela túnica colorida. Quando a túnica ficou gasta, fez um colete. Do colete, virou um cachecol e daí, um botão. Quando o botão estava a cair viu que tinha o suficiente para fazer uma história. E é esta que acabei de contar."

Mary Beth Washington ou, simplesmente, Orunamamu, a Pohsuan  Zaid

Extraído
Phil Cousineau
Editora Estrela Polar


Coincidência ou Destino?


quarta-feira, 9 de março de 2011

Isaac Bashevis Singer

"Nem o fogo da Inclinação pecaminosa arde para sempre. "

(I.B.S.)


Quer ler um pouco? http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/trechos/no-tribunal-de-meu-pai.html
Quer ler tudo?  No Tribunal de Meu Pai, de Isaac Bashevis Singer - São Paulo Companhia das Letras, 2008.
 


domingo, 6 de março de 2011

Sexo Frágil? Eu?

Mulheres,

Somos todas fortes, quando precisamos,
Bem resolvidas, quando o desejamos,
E não desistimos nunca dos nossos sonhos, se os temos.
Frágil? Eu? Você?
Ó Mundo,
Decante-nos e verás quem somos!
Deixo minha homenagem na  letra de Erasmo e Narinha!
  * * *  

Mulher
Dizem que a mulher é o sexo frágil
Mas que mentira absurda
Eu que faço parte da rotina de uma delas
Sei que a força está com elas

Vejam como é forte a que eu conheço
Sua sapiência não tem preço
Satisfaz meu ego se fingindo submissa
Mas no fundo me enfeitiça

Quando eu chego em casa à noitinha
Quero uma mulher só minha
Mas pra quem deu luz não tem mais jeito
Porque um filho quer seu peito
O outro já reclama a sua mão
E o outro quer o amor que ela tiver
Quatro homens dependentes e carentes
Da força da mulher

Mulher, mulher
Do barro de que você foi gerada
Me veio inspiração
Pra decantar você nessa canção

Mulher, mulher
Na escola em que você foi ensinada
Jamais tirei um dez
Sou forte mas não chego aos seus pés

Quer ouvir?



"Mulher com Leque", de Picasso