quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ABISSAL


É um espetáculo este poema.
Tratar das diferenças, da  coragem e da sobrevivência humanas, ao mesmo tempo, e fazendo analogia com os abissais, foi uma ideia ímpar.
Espero que gostem da leitura.
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Não sou peixe de superfície, de águas claras.
Peixes brilhantes, quase à luz do sol.
Peixes de escamas, de luz espalhada,
de cor espelhada, como óculos modernos.

Não sou peixe que pula à tona, à toa,
soltando gritinhos pros barcos que passam,
pros transatlânticos imunes.

Sou peixe que mergulha fundo,
pros territórios abissais,
pro escuro da pressão deformante.

Sou peixe feio, sozinho,
nas lacunas dos infernos marítimos,
de subvoadores.

Sou peixe amorfo, nu,
sem cor definida, vago,
na profunda imensidão do mar,
onde me perco: eterno infinito.

Rochas e sombras.
Algas obtusas, cavalos daninhos,
ostras crocantes
e tubarões de olhos grandes e assassinos.

Sou peixe enterrado nas esferas do habitat maior,
onde a sobrevivência causa pânico,
até aos pescadores.

Sou peixe magro, de barriga grande
e de visão presa, dura, no perigo.

Sou peixe inquilino da vida,
do grande sonho de viver.

Joca de Oliveira

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MINHAS QUERIDAS (trecho)



Vira e mexe leio isso. Julgo Clarice uma inspiração. Hoje é o dia... 22 de dezembro de 2016. Hoje é dia de Clarice... de novo...

Só sei de uma coisa, com toda a certeza: Comodidade nunca foi meu forte. Morna, nem a água do meu banho. Castração da lógica do cotidiano me deixa mais roxa que uma pancada na quina da mesa ou um soco no olho. Angustiante e exasperador.

MORNIDÃO não faz bem, então: 1) Se tiver escolhido ir, vá fundo; 2) Pare de molhar as pontas dos dedos e mergulhe (de corpo e alma). Se não souber nadar, aprenda; e 3) respeite suas próprias vontades. Só tome o cuidado de não invadir o território alheio.

E antes que alguém diga algo, não são conselhos. São compartilhamentos. Quando escrevo, escrevo para mim, ou como disse um amigo, para exorcizar os meus infernos e/ou os meus fantasmas. Fico brava, choro, odeio meio mundo. Depois me acalmo, tomo a decisão que preciso, e a vida segue,  tão certo como o sol se põe, a chuva cai, a terra gira em torno do seu próprio eixo e dá aquela  "giradinha básica" se mostrando para o sol em uma velocidade média de 107.000 km/h. Sou somente um pingo numa letra "i"...

Magda

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Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro… 

Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu…

Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. 

Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. 

Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. 

Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.” 


Clarice Lispector (trecho do livro "Minhas Queridas")
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Atualizado em 22dez2016,11h35